terça-feira, 31 de maio de 2011

Coma alcoólico

            Paro para pensar... Por que me deu de tudo e agora quer tirar?
“Dinheiro? Afinal, quem é dono de quem? Você é a dona dele ou ele é seu dono?”
            A sensação é a de ter tudo e ao mesmo tempo não ter nada, sempre falta algo, então, encho-me em profusão desse doce veneno sedutor que me mata aos poucos. Afogo-me novamente no destilado com doces misturas procurando uma resposta, mas só encontro torpor. Desce gelado esquenta por dentro, e é assim que quero me sentir: quente, abraçada, acolhida. Enquanto minha visão embaça e meu mundo gira, rio atoa, já nem sinto a dor da mágoa por dentro, só a dúvida:  “O que queres de mim?” - Questiono sem parar, pois as vozes em minha mente não são o suficiente para sanar a dúvida.
            Perco a noção do tempo, encaro o barman que empurra mais uma dose e sem negar me deleito, perdendo também a noção de quanto devo pagar antes de sair do bar. Sinto algo em meu estomago revirar, ignoro de início, mas não consigo reprimir o que quer sair. Tudo o entrou durante o dia, me sai pela boca com gosto ruim e amargo, era o gosto da dor que sentira nos últimos dias. Alívio!
            Atraí olhares, claro, mas dessa vez não foram bons, foram de repressão querendo me crucificar. Levantei-me, a sensação era de teto girava sem parar, dei poucos passos perdendo o equilíbrio. Cai. E sem nenhuma mão estendida para me levantar, fiquei ali por um tempo até encontrar forças para me reerguer.  Jogo umas notas sob o balcão, talvez mais que o suficiente e sem me importar, saio. Na rua,  caí pela segunda vez, senti o gosto do asfalto e admito que é não é tão ruim quanto o de vômito. Chamo o primeiro taxi que passa pela rua, sem nem lembrar meu próprio endereço vejo tudo escurecer, adormeço...



            Dizem que Deus não dá a cruz maior do que possamos carregar, sempre pude carregar a minha, mas hoje, já não consigo andar pois meus pés estão suspensos do chão, um prego cravando-os na madeira, braços abertos como quem quer abraçar todas as responsabilidades do mundo, mas dessa vez, não, não agora, eu só queria cruzá-los e ver os outros fazerem o meu trabalho sujo. Tarde demais! Não consigo cerrar meus punhos, os pregos não deixam, dói demais. “Pai, por que me abandonastes?” - Clamo por uma resposta, mas é em vão.
            Sei que me perdi, fui eu o martelo a bater nos pregos, a prostrar-me na cruz de meus próprios desejos, vontades, anseios e na minha própria fraqueza me fiz Barrabás ao duvidar do Cristo e por duvidar perdi-me. Insuportável é sentir as lágrimas dos poucos que me amam a escorrer pelo meu corpo quente e inerte sob o leito de um hospital barato. Sei que não mereço o perdão e nem o céu, sei que posso não acordar de meu sono após os três dias. Se ao menos eu pudesse ter uma segunda chance, quem sabe acordar agora, erguer a cabeça e começar tudo de novo. Quero retomar a consciência que perdi entre um bar e outro, quero a minha ressurreição para a remissão dos meus próprios pecados.

domingo, 22 de maio de 2011

Sem saber

Já não sei se acompanho esses meus pensamentos desalinhados. Estou longe de cair na real, entrar na linha. Estou assim, remando sem direção a um passo para encontrar outros rumos, a minha própria perdição. Ficar sem remar é deixar-se levar para o vão sem volta, a vala sem vida. Vida? Vida não há. O que há... Só as dúvidas que ficaram no ar. Sei não, e se eu não sei de mim, quem há de saber?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O zero

O zero à esquerda da vírgula,
Vírgula que me divide,
O muro no qual me encontro
Sem saber para que lado pular...
Se ganho asas ou se transpasso o chão
Se troco a fé pelo néctar
O X da questão.

É necessário ser alguém para somar um
Necessário saber de que lado estou.
O X da questão, é
Tudo me divide, eu não divido ninguém,
Sou o zero à esquerda da vírgula.
Aquele que ninguém quer ser.

Não me encontro.
Equação inacabada
Talvez sem solução.
Me perdi.
Não encontro o X em mim.